Comecei o natal sem muitas expectativas, como sempre. Natal é sempre aquela sensação de não-pertencimento, de estar no lugar errado, de não-lugar. Tenho vários amigos, por vezes eles me convidam para suas casas, mas isso não diminui meu incômodo. Não tenho uma tradição de Natal, a não ser estar sempre desconfortável onde quer que eu esteja. Não tenho amigo-ocultos pra participar, ceias pra preparar, presentes a comprar, parentes que sempre vêm ou ir sempre pro mesmo lugar. Por isso Natal sempre faz pouco sentido enquanto comemoração familiar. Tenho uma família enorme e mínima ao mesmo tempo.
Além disso, sempre tive um natal itinerante, não tinha lugar certo. Esse ano me senti em família três vezes: na família do meu tio, que sempre me acolheu carinhosamente, e a receptividade de todos me fez sentir como se eu fosse mesmo do núcleo dele. Na família do meu cunhado, que também me acolhe há alguns anos, mas esse ano parece que realmente passei a fazer parte. E em uma que sequer sabe que a considero família, a de músicos. Sou uma cantora frustrada, sempre sonhei cantar profissionalmente, mas não tive coragem de largar um futuro profissional mais promissor para fazer música. Por isso adoro estrar entre músicos, parece a família que eu deveria ter e não tenho.
Foi o melhor natal em anos. Talvez o melhor até agora. Agora é a vontade de segurar o sentimento de repetir a sensação boa, apesar de eu saber não ser possível sentir o mesmo duas vezes. Mas o que não quer dizer que não possam vir outros momentos, outros sentimentos bons.
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As gotas de água descendo do toldo, cadenciadamente, parecem os pinos de uma pianola, tocando uma melodia inaudível. Tento tirar uma foto: em vão, a melodia é invisível também. Está apenas na poesia do meu entreolho, da hora em que me desafogo das tarefas e ou uma olhadela para fora, pro mundo, pro tempo que escorre lentamente, bem como a música da caixinha acabando a corda.
Eu tenho uma ânsia de viver enquanto a vida existe.
Tenho saudade desse momento que acontece agora.
A vida aqui, do jeito que ela está, não se repetirá.
Por isso me morro em cada coisa que faço.
Me dou, me dôo, inteira, em tudo.
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Li recentemente duas coisas que faziam comparação de características de personalidade dos gatos e dos cachorros, e que convidavam a usar mais essas características desses animais. As duas coisas eram distintas, mas curiosamente, apareceram pra mim em datas próximas, e que hoje, fiz uma correlação de uma com a outra.
O primeiro texto exaltava as características felinas, dizendo o quão independentes e fiéis aos sentimentos os gatos seriam. De acordo com o texto, o gato é um animal que se pode confiar, ao contrário do que se diz por aí, justamente por ele não ser dissimulado. Se você fez alguma coisa com ele que ele não gostou, ele retribui na mesma moeda. Nunca tive um gato pra saber exatamente como é, e pra falar a verdade não tenho muita simpatia pelos bichanos, então me fio no que li e ouvi sobre o assunto, assumindo que isso é o que realmente acontece.
Já o segundo texto contava que precisamos ser mais cachorros. Que faz festa quando você chega em casa, mesmo que você o tenha deixado sozinho o dia inteiro. Que chega perto de você quando você está triste pra te dar apoio. Que te perdoa a grosseria e logo vem atrás de você querendo brincar, esquecendo que você foi rude com ele. Disso eu posso dizer com propriedade, tenho cachorros desde os oito anos de idade e lá em casa já passaram mais de vinte caninos. Hoje tenho só a Neném, uma vira-lata misto de fox paulistinha e pincher, uma graça.
A mim parece que o mundo precisa mais de cachorros do que de gatos. Gente mais gregária do que individualista. Que perdoa mais do que vinga. Que faz mais festa do que ignora. É, “acho que sou um cachorro sim”.
Mais de uma vez já escutei que sou uma mulher forte. Em muitos aspectos sou mesmo, no profissional principalmente. Mas não acho que sou diferente de outras mulheres tanto o suficiente para me caracterizarem assim.
Sou uma mulher grande, fisicamente mesmo dizendo. Tenho 1,76m (e meio, não é 1,77), e não sou magra, o que faz com que pareça que sou maior ainda do que realmente sou. Além disso, de um tempo pra cá aprendi a não ter vergonha de usar salto alto, então quem cruza comigo na rua julga que tenho pelo menos 1,90m. Junte isso à cara de poucos amigos que faço normalmente quando estou andando sozinha, explica o fato de ter sido pouco abordada por meliantes, por exemplo. Aí quem conversa comigo a primeira vez nota meu timbre mais pra grave do que agudo, meu tom que por mais que tente suavizar ainda às vezes parece de ordem, e já me rotulam de mulher brava. Nesse pacote todo acho que vai pelo menos 50% da idéia de que eu seja uma mulher forte.
Eu reconheço que eu também não ajudo a desconstruir esse mito. Não choro com facilidade, normalmente não sou carente, nem ciumenta. Fui criada como filha única, e apesar de ter muitos amigos e gostar da presença deles, eu não preciso de alguém o tempo todo do meu lado. Fui criada independente e assim me mantenho porque prezo minha liberdade e individualidade. Aí sim, concordo que seja forte nesses aspectos. Mas acho que eles são apenas 30% do que eu usaria para compor alguém forte.
Os outros 70% tem a ver com o tanto de vezes e como alguém faz pra se levantar depois de um tombo. Como reagir quando a vida lhe dá porradas. Encarar por exemplo que essas porradas são lições. Que todas suas ações têm consequências, boas ou ruins, proporcionais às suas ações. Ter a hombridade e humildade de reconhecer quando está errado. E realmente fazer algo para que o erro não se repita. Não ficar só no discurso. Tomar as rédeas da própria vida. Aprender que loteria é só um sonho gostoso de sonhar, que não existe nada ganhado, mas sim conquistado. E conquistar e ganhar têm uma diferença enorme. Que se seus pais não foram capazes de te dar limites, que a vida se encarrega de coloca-los, e de forma muito mais dolorosa do que se seus pais tivessem tido coragem de te dizer “não”. E aprender que culpa é um sentimento inútil, porque ele só te engessa onde você está. “O que eu poderia ter feito” nunca mudou a história de ninguém, mas “o que eu vou fazer da próxima vez que isso acontecer” faz toda a diferença na vida de uma pessoa.
É, no fim das contas acho que sou uma mulher forte sim.
